Alê SodréTerapeuta da Alma

Donzela, Mãe, Feiticeira e Anciã: quatro faces para se reconhecer

No Mulheres de Fases, aproximo as quatro faces do ciclo das histórias de Ártemis, Deméter, Hécate e Inanna. São imagens para pensar o cotidiano e observar o que você vive em cada momento.

Alê SodréTerapeuta da Alma · 23 de outubro de 2026

Como uso os arquétipos femininos do ciclo

Um arquétipo é uma imagem que reaparece em mitos e histórias, como a Mãe ou a Anciã. No meu livro, essas figuras ajudam a dar linguagem ao começo, à criação, à revisão e ao recolhimento.

Miranda Gray, autora de Lua Vermelha, é uma das referências que cito para as quatro faces do ciclo. No atlas, cada face encontra uma deusa, uma estação interior e uma lua simbólica.

A Donzela acompanha a fase pré-ovulatória; a Mãe, a ovulatória; a Feiticeira, a pré-menstrual; e a Anciã, a menstrual. Uso essa correspondência como mapa de observação, com espaço para diferenças entre mulheres e entre os ciclos da mesma mulher.

Donzela: Ártemis e a vontade de começar

A Donzela é a imagem da primavera interior e da lua crescente. No meu livro, ela aparece com Ártemis, deusa grega da caça, das florestas e dos animais selvagens.

O mito conta que, ainda menina, Ártemis sentou no colo de Zeus e disse com detalhes o que queria: autonomia, arco e flechas, montanhas e companheiras de caça. Depois, foi buscar o que havia pedido e seguiu para a floresta.

Eu leio nessa história uma disposição para escolher o próprio caminho. A Donzela favorece começar, aprender, planejar e experimentar, sem precisar ter todas as etapas resolvidas antes do primeiro passo.

No cotidiano, isso pode ser abrir um documento, fazer uma inscrição ou retomar uma ideia. O cuidado está em assumir mais compromissos do que cabem, empolgada com a disposição daquele momento.

Uma prática do livro é escrever três objetivos claros para o ciclo. O gesto pede que você escolha onde quer colocar atenção, em vez de sair correndo em todas as direções.

Mãe: Deméter e o cuidado com medida

A Mãe corresponde ao verão interior e à lua cheia. Eu a apresento com Deméter, deusa grega da colheita, ligada à terra que alimenta e ao que cresce com cuidado.

No mito, Perséfone, sua filha, é levada por Hades ao mundo de baixo. Deméter a procura e, em seu luto, interrompe a fertilidade da terra, até que um acordo permite o retorno da filha por uma parte do ano.

Essa história também guarda a força da recusa. Deméter alimenta, mas sabe parar de oferecer; no livro, essa é uma lembrança central para viver a Mãe com limites.

Ter filhos não é condição para reconhecer essa face. Ela aparece no cuidado com um projeto, uma horta, uma relação, um negócio ou algo que você está criando.

O convite é compartilhar, conversar, apresentar o trabalho e celebrar o desejo. Antes de aceitar um pedido, observe quanto tempo e energia tem disponíveis e mantenha espaço para receber cuidado também.

Feiticeira: Hécate e as escolhas necessárias

A Feiticeira acompanha o outono interior e a lua minguante. Sua deusa no livro é Hécate, ligada às passagens e às encruzilhadas, com a tocha que ilumina os caminhos.

Na história de Deméter, Hécate ouve o grito de Perséfone e ajuda a mãe a procurar a filha. Depois, passa a acompanhar Perséfone nas travessias entre os mundos.

Eu encontro nessa imagem uma companhia para os momentos em que é preciso rever uma escolha. Hécate oferece luz, enquanto a decisão continua nas mãos de quem está diante dos caminhos.

No cotidiano, a Feiticeira favorece revisar, concluir, organizar e reconhecer limites. Pode ser o momento de terminar um texto, conferir as contas ou dizer um não que vinha sendo adiado.

O cuidado é decidir no calor da raiva. No livro, proponho escrever primeiro, dormir e depois avaliar o que precisa ser dito; essa pausa preserva a possibilidade de falar com clareza.

Anciã: Inanna e o tempo de recolher

A Anciã representa o inverno interior e a lua nova. No Mulheres de Fases, eu a aproximo de Inanna, a rainha suméria que desce ao mundo de baixo para encontrar a irmã, Ereshkigal.

A cada uma das sete portas, Inanna deixa uma peça do que vestia e carregava. Antes da descida, combina com Ninshubur que ela buscará ajuda caso não retorne, e essa companhia participa de seu caminho de volta.

Eu leio a descida como uma imagem de recolhimento e de deixar terminar. A história também lembra a importância de combinar apoio, em vez de atravessar tudo em silêncio.

Na vida diária, a Anciã convida a diminuir os estímulos, descansar e avaliar o que o ciclo deixou. O cuidado é manter uma agenda cheia e cobrar de si a mesma disposição dos dias de expansão.

Uma prática possível é abrir o diário e escrever o que precisa terminar e o que deseja levar para a próxima volta. Algumas percepções podem ficar no papel antes de se tornarem decisões.

Como levar as quatro faces para a vida

Eu proponho observar antes de organizar a rotina em torno dos arquétipos. Registre na Mandala Lunar quando surge vontade de começar, encontrar pessoas, revisar ou ficar quieta, e compare essas percepções ao longo de três ciclos.

As luas e as estações são referências simbólicas. Você não precisa menstruar na lua nova, sentir desejo na lua cheia ou reconhecer todas as descrições em cada mês.

Quem não menstrua pode usar as fases da lua do céu como calendário simbólico para essas práticas. O convite continua sendo prestar atenção ao que vive, com liberdade para adaptar ou deixar uma proposta de lado.

Dor forte, sangramento fora de hora ou sofrimento intenso pedem avaliação profissional. Nenhuma deusa explica sozinha um sintoma; os ritos, as ervas e as receitas do livro são autocuidado e não substituem acompanhamento de saúde.

Perguntas frequentes

Preciso acreditar nas deusas para usar esse mapa?

Você pode ler as histórias como imagens simbólicas para refletir sobre a vida. A prática não exige uma crença religiosa.

A Mãe é só para quem tem filhos?

Não. No livro, essa face também aparece no cuidado com projetos, relações e outras formas de criação.

Preciso viver as quatro faces na ordem do livro?

A ordem acompanha o mapa simbólico do ciclo. Na prática, eu proponho observar sua experiência sem forçá-la a caber nessa sequência.

A lua determina qual arquétipo estou vivendo?

Não. Uso a lua como referência simbólica, sem atribuir a ela o controle do ciclo ou das emoções.

Posso acompanhar os arquétipos depois da menopausa?

Sim, como prática de reflexão e autocuidado. Você pode usar as fases da lua do céu para organizar esse percurso simbólico.

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